O amarelo das camisolas da equipa da ATB – Acabamentos Têxteis de Barcelos “é uma cor obtida através de bactérias, o rosa que vestimos ontem e o azul que vamos usar amanhã também”, garante Miguel Domingues, diretor de desenvolvimento da tinturaria, que se estreou este ano na Techtextil, em Frankfurt.
Sobre o Colorifix - uma solução criada por investigadores da Universidade de Cambridge e apresentada como “uma tecnologia de tingimento biológico que minimiza o uso de petroquímicos, água e energia, uma nova era na engenharia biológica de cores” - o responsável, biólogo de formação, detalha: “Em vez de corantes, estamos a falar de sequências de ADN da natureza e de microrganismos como bactérias que são alimentados para crescer e fermentam. É um processo semelhante ao que é usado para fazer iogurte ou cerveja”.
Na visão da empresa, “a parceria com startups é uma forma de trazer inovação para dentro de portas”, sublinhou Miguel Domingues ao Expresso, durante a participação num dos 30 expositores portugueses presentes no final de abril naquela que é a maior feira mundial de têxteis técnicos, com o objetivo de encontrar negócio e oportunidades para diversificar tanto a oferta como a carteira de clientes.
Da moda à defesa
Nesse caminho, a ATB assinou um protocolo com a Universidade de Coimbra para instalar o primeiro protótipo industrial da tecnologia Dyeloop, que, segundo a empresa, “permite tingir tecidos de forma mais barata e sustentável” ao reutilizar corantes. A promessa passa por uma “redução significativa dos consumos de água e energia”, “reaproveitando efluentes de tingimento ainda com cor”, numa lógica circular que aponta para um corte de 50% nos custos associados ao tingimento têxtil. No balanço, “é mais uma forma de mostrar que trabalhamos para o menor impacto possível".
Criada em 1985 e centrada no tingimento e acabamento de malhas - complementada pelo trabalho da Etevimol – Empresa Têxtil de Vilar do Monte, do mesmo grupo, nas vertentes de tecelagem e desenvolvimento de malhas - a ATB “cresceu com o foco no sector da moda, mas aposta, agora, no segmento dos têxteis técnicos e funcionais para potenciar a sua expansão”.
“Sempre fizemos moda, mas a Covid levou-nos a abrir a oferta ao sector da saúde, trouxe-nos para as máscaras, para soluções antibacterianas e antivírus, para novos mercados”, conta Miguel Domingues
A ambição, neste momento, “é ser transversal e trabalhar com marcas de vestuário e têxteis-lar, mas também nos segmentos do desporto, da mobilidade, da saúde e da defesa”. Como exemplo do que está em cima da mesa, Miguel Domingues refere: “Os exércitos precisam de estar permanentemente a mudar o estampado das telas dos camuflados para escaparem à detecção pelos drones dos inimigos e estamos a ter alguns contactos nessa área”.
Desporto nos EUA
O espaço expositivo da ATB na feira foi montado de forma simples, apoiado apenas em amostras do portefólio, mas dá destaque a soluções orientadas para durabilidade, desempenho, circularidade e sustentabilidade - como o Reocoer. “Trata-se de um poliéster inovador, muito leve, com propriedades antiestáticas e termorreguladoras, entre outras, produzido por uma empresa parceira a partir de fibras capturadas do carbono”, descreve. E acrescenta, sobre a origem da matéria-prima: “é a poluição emitida por fábricas chinesas, mas também pode estar nos tubos de escape dos autocarros na Índia”.
Com 200 trabalhadores e vendas de €18 milhões por ano - a que se somam 80 pessoas e um volume de negócios de €10 milhões da Etevimol - a ATB exporta, direta e indiretamente, 70% da produção. A Europa continua a ser o principal destino, mas há também mercados como a Tunísia, Marrocos e os Estados Unidos, onde a empresa está a desenvolver um projeto para equipamentos desportivos em modalidades como futebol americano e basquete.
Para Miguel Domingues, “Os Estados Unidos estão a querer afastar-se da Ásia e ficam disponíveis para uma maior aproximação à Europa que tem de ser aproveitada”. Nesse contexto, defende que “é essencial estabelecer pontes com clientes, com fornecedores e até com outras empresas do sector”. E insiste: “Faz falta pensarmos juntos. Não somos nada se não tivermos atrás de nós uma fileira que nos apoia”.
30 mil referências
Quanto ao Norte de África, a empresa diz não ver entraves: “Não temos problemas em promover a abertura do sector têxtil e do vestuário ao norte de África. São mercados menos penalizados do que a Europa pelas tarifas norte-americanas e consegue-se preços competitivos com produção de proximidade. Sabemos que o preço da mão de obra lá é muito mais baixo e que isso pode ser fundamental nos próximos tempos. Queremos ser facilitadores no sourcing (identificar e contratar fornecedores) para vendermos o nosso produto, as nossas malhas”, afirma.
É também essa lógica de ponte que se materializa no pequeno espaço da ATB em Frankfurt, onde “clientes marroquinos e fornecedores turcos” se encontram e cruzam interesses - estes últimos apresentados como “um dos maiores produtores de poliéster e poliamida do mundo”. Ali mesmo, em conjunto, avançam para responder ao pedido da unidade do Norte de África: uma cobertura plastificada, resistente a lavagens e a temperaturas elevadas, num tom de verde específico, aplicada sobre um poliéster sem danificar a base.
A solução passará a ser mais uma entrada no catálogo. Com uma biblioteca interna que ultrapassa 30 mil referências, a ATB “produz mais de duas mil referências por ano” e mantém-se “confiante no crescimento das vendas, suportado por novos projetos em curso”, embora evite indicar metas para 2026. A guerra no Médio Oriente “trouxe incertezas” e o bloqueio do estreito de Ormuz acrescenta riscos de disrupção nas cadeias logísticas, de escassez de matérias-primas e de subida dos custos de energia, em particular do gás natural.
“N\nas entregas de materiais, temos sentido alguns atrasos devido a falhas de fornecedores europeus e a algumas falências de fiações na Europa”, aponta Miguel Domingues.
O Expresso viajou a convite da Messe Frankfurt
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